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As imagens de Budapeste


Dimas Novais


As imagens de Budapeste

Budapeste é a milenar capital da Hungria, centro europeu. Budapeste é o título da obra com a qual o músico Chico Buarque ganhou o respeitado Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção de 2004. Budapeste é agora, também, um filme dirigido por Walter Carvalho e que chega hoje ao circuito nacional. Sem querer reduzir Budapeste a essas três considerações, percebe-se que há nestas um fator comum a mais que o óbvio: a reconstituição. Enquanto urbana, ela é fruto de não inconstantes reconstruções. Como livro, é o terceiro tijolo na edificação literária do compositor, 14 anos após seu último lançamento em livro. Sendo filme, é a terceira adaptação de Chico para o cinema. E é exatamente sobre a película que discorro aqui.

O longa-metragem, de 113 minutos, traz à tona a vida amarga de um escritor-fantasma, profissional disposto a escrever para que outros assinem, incondicionalmente vivendo no anonimato. O carioca protagonista José Costa (Leonardo Medeiros) é um desses tipos. Sem ter encontrado a felicidade ao lado de sua esposa, a workaholic e bem sucedida jornalista Vanda (Giovana Antonelli), ele se depara com o reconhecimento de suas obras em nomes de outros, o que lhe exerce um emaranhado de fascínio e solidão. A partir, então, de uma vida de falsos sucessos, Costa só se vê refugiado na inebriante língua húngara. E é através desse idioma que ele encontra uma paz e uma paixão que não sentira anteriormente.

O ser humano possui uma língua materna - aquela que aprendeu através da convivência com os seus primeiros contatos comunicacionais - e um privilegiado espaço no cérebro para ser preenchido por outras tantas que se queira dominar. Há aquelas pessoas que se apaixonam por certos idiomas e outras que não conseguem nem se quer arranhar outro. Não que seja absurdo apaixonar-se por outro linguajar, mas preencher um vazio íntimo através de uma fluência de diferente palavreado é perceber que amarras culturais só são amarras. E foi assim que o personagem José Costa conseguiu descobrir o caminho para uma sublime felicidade: aprendendo outro idioma - "a única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita", como diz um ditado. Por um azar mais que sortudo, Costa vai parar em Budapeste e conhece Kriska (Gabriella Hámori), nativa que lhe ensina o vocabulário da terra. Do lecionar ao amar é um passo - leve e bem-humorado passo.

Na fotografia, um tom que vai à altura do agradável aos olhos e que confere ao enredo sensações no limiar entre o gélido e o afável. Na direção, a criatividade de quem tenta sair da abstração das menos de 200 páginas do roteiro original (o livro) para um posicionamento de visões por vezes embaçadas (até literalmente), mas confortável tal qual a direção de fotografia. As duas se encaixam.

Em um ano marcado por best-sellers que vão ganhar as telonas, Budapeste é o que menos deve fazer sucesso na cena nacional. Justificável. Harry Potter e o Enigma do Príncipe (Harry Potter and the Half-Blood Prince), baseado na obra de J. K. Rowling, é um mar de faturamento certo - deverá levar uma boa fatia do público infanto-juvenil às salas, a partir do dia 15 de julho, quando estreia mundialmente. Veronika Decide Morrer (Veronika Decides to Die), apesar de ser uma adaptação do escritor brasileiro Paulo Coelho, foi produzido pela indústria de Hollywood e é estrelado por Michelle Gellar, o que praticamente garante uma distribuição mundial e um lucro nesse porte. E Anjos e Demônios, (Angels & Demons), de Dan Brown, já está no caminho de uma arrecadação não surpreendente, mas dentro das expectativas. Enquanto isso, "Budapeste" ousa ao inserir legendas por longos períodos dificultando mais ainda a penetração de Chico Buarque no grande público.

Definitivamente, sem a facilidade de leitura de um folhetim esmiuçado até a última ponta, como a comédia Se Eu Fosse Você 2, recente explosão de sucesso de bilheteria nacional, Budapeste deve mesmo manter-se aprovada pela peste, já que ela é simpática ao húngaro. Um longa-metragem, entretanto, para além dos leitores do livro homônimo. Drama acima de tudo para ser lido com a visão de um descomprometimento a Chico Buarque. Com ataques de sentimentos contraditórios e algumas cenas no estilo "arriscar tudo" do personagem principal, tal como o palavreado húngaro, o filme pode parecer desconfortável aos brasileiros, no que diz respeito ao roteiro. Entretanto, com o auxílio da fotografia, o longa apresenta uma carga de vivacidade no encontro de José Costa com sua nova paixão: Budapeste.

Texto de Dimas Novais Repórter de Cultura da Tribuna da Bahia
Ex-Diretor de Comunicação da Produtora Júnior UFBA