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Wallace Oliveira (colaborador)





Deus e o Diabo na Terra do Axé?

A música baiana intitulada axé music vem passando, ao longo dos seus 25 anos de existência, por intensas transformações. Desde o surgimento - em meados dos anos 80, com Luís Caldas e seu Fricote - até os dias de hoje. Muita coisa mudou. Em todos os sentidos.

No início, havia maior preocupação com as letras - em que pese a pobreza de muitos arranjos e a quase total improvisação (leia-se, ausência de profissionalização). Bandas como a Mel e a Reflex'us estouravam nas paradas de sucesso com letras que popularizavam verdadeiras aulas de História e Geografia (vide Faraó e Canto para o Senegal, só para citar 2 exemplos). O Cheiro de Amor irradiava a energia e carisma de Márcia Freire - hoje relegada ao ostracismo midiático -, o Chiclete com Banana despontava como grupo legionário, que é até hoje e surgiam, na linha do horizonte, futuras estrelas da constelação baiana, como Carlinhos Brown, Bell Marques, Netinho e Durval Lelys. Sarajane e sua Roda brilhavam na Meca do estrelato da época - o extinto Cassino do Chacrinha, da Rede Globo. O Olodum ecoava suas batidas do Pelourinho para o mundo.

Mas o melhor estava por vir. Foi o fim da década de 80 e início de 90 que proporcionou o surgimento/consolidação dos frutos de uma das melhores fases (senão a melhor) do axé: Margareth Menezes, Daniela Mercury e Ivete Sangalo davam o ar da graça com apresentação de trabalhos/interpretações memoráveis. Era, enfim, o ápice do axé.

Durante toda a década de 90, o que se viu foi a hegemonia nacional do axé music - que, ao lado do pagode do Sudeste e do sertanejo do interior do Brasil, dominou o mercado fonográfico brasileiro desta período. O grupo É o Tchan (originariamente, Gerasamba) vira mania nacional, com suas coreografias sensuais e letras de duplo sentido. Nomes como Carla Visi (uma das melhores cantoras do movimento), Gil (hoje Gilmelândia, dona de belíssima voz), Saulo Fernandes, Tatau (Araketu) e Xexéu/Patrícia/Ninha (Timbalada) vêm reforçar o movimento baiano, cada vez mais forte e dominante.

Mas as críticas - assim como o sucesso - não paravam de crescer. Artistas de outros estilos musicais reclamavam, constantemente, do "monopólio" exercido pelo estilo baiano. As letras, temáticas e melodias, nem sempre aceitas por significativas camadas da crítica especializada (sobretudo do Sul do país), incomodavam, sobretudo os integrantes das elites intelectuais.

Já na primeira década deste século (isto é, a partir do ano 2000), outros nomes vieram a se agregar aos já consolidados: Claúdia Leitte, Xanddy, Alinne Rosa, Tomate, só para citar alguns. Todavia, a partir desta mesma década, muita coisa mudou. Com o império da pirataria e a monotonia do estilo, o axé music declinou, e muito - tanto em vendas como em execução. E é aí que se percebe mudança significativa no perfil do gênero musical: o crescimento e popularização do pagode-povão, que ora consagra letras pornográficas, ora ridiculariza a mulher negra e pobre, ora retrata o cotidiano dos guetos e periferias. E é nessa "onda" que despontam nomes como Eddye (ex-Fantasmão e hoje Ed City), Léo (Parangolé), Márcio Vitor (Psirico "do Povão") e O Troco ("Todo Enfiado", a professora, o Youtube...).

O que se percebe, atualmente, é o domínio do pagodão sobre as camadas populares, o que vem "empurrando" o mais tradicional "axezão" para as classes médias - que, contudo, não têm ficado imunes ao batuque do gueto. Por exemplo, o sucesso absoluto dos ensaios do Parangolé, na Área Verde do Hotel Othon, reduto das patricinhas e mauricinhos descolados da capital baiana.

Enfim, resta saber se isso tudo é bom ou ruim. Se o axé music é Deus ou o Diabo. Polêmicas e opiniões à parte, certo mesmo é que a questão apresenta dois lados (de uma mesma moeda). Com a explosão do axé, a Bahia ganhou em visibilidade, incremento turístico e profissionalização do Carnaval de Salvador (considerada a maior festa popular do mundo). Mas não se pode negar que nenhum monopólio artístico é positivo - afinal, o sol nasce para todos.

Argumentar que o gênero musical só produz "porcarias" é decair no campo da mentira. O axé music já produziu e ainda produz pérolas da Música Popular Brasileira, e disso todo mundo sabe. Além do mais, falta de qualidade não é exclusividade da música baiana.

Por outro lado, é visível que o gênero vem passando por uma crise criativa. Será que a excessiva profissionalização (ou seria ambição?) pasteurizou o movimento? Ou será que a fonte da criatividade secou? Tirem vocês mesmos suas próprias conclusões... Que surjam mais Ivetes Sangalos, nos convidando a entrar em suas casas ao lado de Marias Bethânias e Marcelos Camelos. Ou Danielas Mercurys com suas Canibálias. E que os anjos (do céu) digam Amém. Sob a bênção do Senhor do Bonfim.

Salvador, 26 de janeiro de 2010

Texto de Wallace Oliveira (advogado)
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